sábado, 23 de março de 2013

O Bilhete



Conto: O BILHETE
Autor: Sidney Santborg

Era um final de tarde chuvoso em São Luís do Maranhão... Morava em um casarão antigo característico daquela cidade, com azulejos portugueses desenhados em cores azul e branca. Era uma verdadeira obra de arte; um monumento histórico. Ficava próxima à Praça Deodoro, local movimentado do centro da capital ludovicense, onde todos que trabalham pelas redondezas passam, seja no início, ou final do dia.
O temporal caia fortemente e já anoitecia quando cheguei à minha casa. Não era minha de fato, pois era só um estudante e batalhava uma colocação no mercado. Morava de favor em um quartinho, aglomerado com faixas e cartazes de um sindicato. Porém, estava buscando meus objetivos... Cheguei tão cansado, faminto e molhado, só deu tempo de tomar um banho, fazer um pequeno lanche e pegar no sono. Confesso que somente cochilei...
Depois de alguns minutos ouvi um barulho vindo do corredor de acesso ao meu quarto; fiquei apreensivo, mas tentei me tranquilizar, já que o portão estava com cadeado. Podia ser o vento da tempestade...  O barulho da chuva caindo fortemente no telhado, poderia ser qualquer coisa tentando me tirar o sono, querendo me assustar... Isso porque eu estava sozinho naquela casa, mas mesmo assim, eu me sentia seguro, pois ficava no segundo andar.
Não ouvi barulho do portão, mas comecei a ouvir passos vindos em minha direção. O medo tomou conta de mim e sem ter coragem de acender as luzes fiquei quieto. Meu coração parecia saltar pela boca, era um momento tenso e de muita aflição.
Os passos se aproximavam como em um filme de suspense... Esperava já o ranger da porta. Quem poderia ser? O portão fechado e a porta do quarto trancado a chave, não devia temer. Mas meus olhos se recusavam a esperar algo para ver. Então resolvi me cobrir com um lençol, tentando uma proteção que só seria possível na mente inocente de uma criança, o que não era o caso... Estava envolto dos pés a cabeça com aquele lençol fino, mas me sentia livre de todo e  qualquer perigo naquele momento.
E os passos continuavam a se aproximar e só me restou aguardar... Então, logo senti algo chegar bem perto... Aqueles passos atravessaram a porta sem abri-la. Percebendo essa proximidade, um arrepio tomou conta de mim, senti todos os pelos do meu corpo querendo fugir... Respirei fundo e comecei em pensamento pedir a Deus proteção e algo aconteceu.
Aqueles passos chegaram... Porém, não tive coragem de abrir os olhos para ver através do fino lençol. Senti que estavam parados me observando por alguns segundos, contudo, rapidamente saíram. Deu a volta e foram se afastando...  Novamente atravessaram a porta e foram embora. Da mesma forma que chegaram, sem explicação, aqueles passos se foram pelo corredor até sumirem por completo.
Continuei minha oração... Agora não mais pedindo a proteção, mas agradecendo... Quando novamente fui surpreendido por algo diferente e inusitado. Estava ainda envolto com o lençol. De repente, uma luz branca estava sobre mim, como holofotes que vinham do teto... Como se alguém acabasse de ligar o interruptor. Mas era apenas um feixe de luz sobre mim e direcionado a mim, formando um círculo e eu estava no centro. Não sei o porquê daquilo, não compreendi o que realmente aconteceu. Mas senti que aquilo era bom, algo que me tranquilizava... Era a luz expulsando a treva. Era a luz aquecendo minha alma congelada pelo medo e que aos poucos me fazia sentir paz.
Aquela luz permaneceu comigo até eu voltar a dormir... Foi um sono tranquilo até amanhecer. Quando acordei, estava me lembrando de tudo. Rapidamente fui olhar a porta e o portão, mas tudo permanecia da mesma forma que os tinha deixado, ambos fechados, a chave e cadeado. Confesso que fiquei sem saber o que pensar. Todavia, me veio à mente que tudo não passou de um sonho. E convencido que fora realmente um sonho, eu tentei me desligar e esquecer tudo.
Então, fui me preparar para ir à escola, tomei meu banho e improvisei um café da manhã básico; aquele do brasileiro apressado, café pingado com leite gelado e um pão dormido com margarina... Depois rapidamente peguei a mochila e joguei meus cadernos dentro e me dirigi ao portão de saída. Quando já estava na rua, novamente algo se sucedeu... Um vento muito forte surgiu do nada. Veio sobre mim uma mistura de areia e folhas, meus olhos se fecharam para proteger a visão, por alguns segundos me senti dentro de um pequeno tornado, pois o vento fazia movimentos circulares ao meu redor. Foi um momento de curtíssima duração... Entretanto, foi bastante para ver toda minha vida passar diante dos meus olhos fechados... Todos os momentos de dificuldades, os medos, as tristezas e angústias... A solidão. Senti a dor no meu coração, que levava um choro à garganta, transformando-se em um nó, que eu insistia em engolir a seco.
Quando abri os olhos, o vento já havia passado e no meu peito uma folha de papel amassado. Sim, um pedaço de papel... Parecia estar colado em minha roupa, tentei me livrar dele, mas ele insistia em ficar. Então, segurei-o na mão e percebi algo escrito, como uma citação. Aquele papel meio sujo, amassado e com as bordas rasgadas... Era um bilhete... As letras eram de forma e estavam escritas em tinta escura e traziam a seguinte descrição:
“Este é para você meu filho. Não temas, pois sempre estarei contigo”.


Imagem: http://maranhaoturismo.wordpress.com/

2 comentários:

  1. Olha meu amigo!!! li e reli seu texto, deixo aqui meus parabéns e todo sucesso do mundo, creia sempre e esteja sempre com ele, pois ele lhe abrirá todas as portas... que Deus seja contigo........

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  2. Olá, parabéns pelo belíssimo conto.
    Beijinhos de fim de semana.
    http://marlicarmenescritora.blogspot.com.br/

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